Sony Music e Warner Chappell entraram com uma ação contra a Anthropic no Tribunal Distrital dos EUA para o Distrito Norte da Califórnia, alegando que dezenas de milhares de obras foram usadas sem autorização para treinar os modelos da empresa. O pedido de indenização chega a US$ 150.000 por obra violada, mais até US$ 25.000 por cada caso em que informações de gestão de direitos autorais identificáveis — como créditos de compositor ou metadados de propriedade — teriam sido removidas do material antes do treinamento.
A ação vai além da alegação padrão de uso não autorizado: as gravadoras descrevem o comportamento da Anthropic como parte de uma campanha ampla de apropriação indevida de propriedade intelectual, incluindo acusações de que a empresa recorreu a pirataria ilegal para obter os dados. Isso é relevante porque desloca parte da discussão jurídica de "é justo treinar com material protegido?" para "como esse material foi obtido em primeiro lugar?" — uma linha de ataque mais fácil de provar e com penalidades potencialmente mais severas.
O processo não é isolado. Editoras musicais, jornais e autores já movem ações semelhantes contra OpenAI, Meta, Stability AI e outras empresas de IA generativa nos últimos anos, todas girando em torno da mesma pergunta sem resposta definitiva: treinar um modelo com obras protegidas configura uso justo (fair use) ou exige licenciamento prévio? Nos EUA, decisões recentes em casos envolvendo outras empresas têm sido mistas, sem um precedente que sirva de bússola clara para o setor.
O que muda com a entrada da Sony Music e da Warner Chappell é o peso institucional. São duas das maiores detentoras de catálogo musical do mundo, com recursos jurídicos para sustentar litígios longos e capacidade de influenciar como outras gravadoras — e outros setores de conteúdo — vão se posicionar diante de empresas de IA. Se o valor por obra pedido na ação servir de referência em eventuais acordos, o cálculo de custo de treinar modelos com dados não licenciados muda de forma significativa para qualquer empresa do setor, não só para a Anthropic.
A Anthropic ainda não respondeu publicamente às acusações, e não há indicação de cronograma para uma decisão. Fica em aberto se o caso vai a julgamento ou termina em acordo — o que tem sido o desfecho mais comum nesse tipo de disputa até agora — e, principalmente, se a acusação de pirataria vai se sustentar com provas concretas ou se é uma estratégia para fortalecer a posição de negociação das gravadoras.